Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A Maldição de Sam Bowie

Quando tudo começou...


Na última quarta feira (15/11), no Staples Center, aconteceu um jogo de NBA entre Sixers e Lakers, dois dos times jovens mais interessantes da NBA. E entre vários motivos pelos quais o confronto gerou antecipação entre fãs e mídia foi o confronto de dois dos calouros com mais hype da temporada: o australiano Ben Simmons, armador (de 2 metros e 10, mas armador) do Sixers e escolha #1 no Draft de 2016, contra Lonzo Ball, armador do Lakers recém-escolhido #2 no Draft.

Mas se Simmons brilhou na partida com 18 pontos, 10 assistências, 9 rebotes e 5 roubos de bola, o mesmo não pode ser dito do muito falado calouro de Los Angeles. Lonzo Ball terminou o jogo com 2 pontos, 2 assistências e 2 turnovers, acertando apenas 1 de 9 arremessos e errando todas as 6 bolas de três pontos que tentou, antes de passar o quarto período inteiro sentado no banco de reservas - pela segunda partida seguida. Nos seus 21 minutos de quadra, o Lakers foi um -18. Nos seus 27 minutos no banco, o Lakers foi +12 em quadra. A partida ruim continuou uma temporada bastante fraca e decepcionante de um dos calouros mais aguardados e comentados dos últimos anos.

(Joel Embiid, diga-se de passagem, anotou 46 pontos, 15 rebotes, 7 assistências e 7 tocos na partida, números que nenhum jogador da história da NBA anotou oficialmente me uma partida).

Claro, catorze jogos não dizem nada sobre a capacidade de Lonzo (ou qualquer outro calouro) de se tornar um grande jogador de NBA. É uma amostra muito pequena, e calouros sempre terão maior demora e dificuldade para se adaptar ao jogo mais rápido e físico da NBA. É muito cedo para falar que Ball não será um bom jogador de basquete. Seu talento é real, e seus passes já são de altíssimo nível - ele provavelmente ficará bem.

Ainda assim, existe algo maior e mais preocupante que pode atrapalhar Lonzo na sua trajetória profissional. Ao contrário do que muitos pensam, não é seu arremesso, nem o excesso de hype, e nem seu pai falastrão - e sim uma influência que começou 14 anos antes de Lonzo Ball sequer nascer.

Estou falando, é claro, da Maldição de Sam Bowie.

Para aqueles que não sabem do que eu estou falando, Sam Bowie era um pivô da universidade de Kentucky que foi a segunda escolha do Draft em 1984. Bowie ficou cinco anos em Kentucky (perdendo dois deles por conta de lesões no pé) e, quando foi para o Draft, já era dois anos mais velho do que a grande maioria dos prospectos da época (tinha 23 no seu ano de calouro). Sam era um pivô bem alto e um jogador bastante habilidoso e refinado próximo à cesta quando saudável, mas lesões no pé e na perna (as mesmas da época de Kentucky) acabaram com sua carreira -  Bowie jogou 60 jogos ou mais apenas seis vezes na sua carreira e nunca conseguiu fazer nada demais em quadra. Depois de 11 anos decepcionantes e marcados por lesões, Bowie se aposentou da NBA.

Por si só, a carreira de Bowie não teve nada de especial - um bust talentoso que até jogou bem quando saudável mas foi traído por problemas físicos. Como Sam, tem dezenas de outros jogadores semelhantes na história da liga. O que fez de Bowie diferente - e marcou seu nome de forma infeliz na história da NBA - é que uma escolha depois do Blazers ter pego Bowie, o Chicago Bulls escolheu um tal de Michael Jordan para o seu time. E o resto é história.

(Curiosidade interessante: no Draft de 1984 - em que o Rockets escolheu Hakeem #1, o Blazers pegou Bowie #2 e o Bulls ficou com o grande prêmio no #3 - o Rockets negociou uma troca com o Blazers no qual enviaria seu então Frachise Player, Ralph Sampson, em troca de um calouro de pouca expressão chamado Clyde Drexler e a escolha #2 para pegar Michael Jordan. No final, o Rockets recuou e nunca fez a troca. E foi assim que chegamos tão perto de ver Hakeem, Jordan E Clyde Drexler jogando sua carreira juntos no mesmo time. Durma com essa.)

Mas quando o Blazers passou Jordan para pegar Bowie com a escolha #2 (aliás, uma decisão que a franquia curiosamente reviveu 23 anos depois quando passou Durant para pegar Greg Oden) eles não apenas assinaram seu próprio destino (adivinha quem chutou a bunda do Blazers nas Finais de 1992 e destruiu a confiança do seu Franchise Player no processo?) e mudaram a escala de poder dentro da NBA. Eles também condenaram para sempre o destino da escolha #2 do Draft. Começou assim a Maldição de Sam Bowie.

A escolha #2 do Draft deveria ser um ativo de extremo valor. Ainda que não tão bom quanto a escolha #1 (dã!), onde saem os jogadores que são as absolutas certezas (Hakeem, Duncan, LeBron, Shaq, etc), a escolha #2 ainda coloca qualquer time em uma fantástica posição para escolher seu Franchise Player do futuro, uma posição privilegiada que deveria render grandes frutos para seu time. Escolha #2, pegue um Franchise Player, jogue ele por 12 anos, monte o time ao seu redor, tenha sucesso, aposente sua camisa - quase o mesmo que pensamos sobre a escolha #1.

E no entanto, desde que Bowie foi escolhido, esse não tem sido o caso - a escolha #2 tem sido um local para fracassos, decepções e frustrações. Não necessariamente para os jogadores nela escolhidos, mas para os times que detinham essa escolha. Desde Bowie, praticamente todos os jogadores escolhidos com a escolha #2 foram ou um bust, destruídos por lesões (ou pior...), um jogador decente mas decepcionante (dado sua posição), ou um jogador de sucesso que só se realizou DEPOIS de ser trocado ou deixar o time que o escolheu. Se o objetivo da escolha #2 era achar um Franchise Player, praticamente todas as escolhas deram errado, com duas notáveis exceções - as quais você vai perceber a ironia daqui a alguns parágrafos.

Não acredita em mim? Vamos fazer então uma passada histórica por todos os jogadores selecionados #2 no Draft desde aquela fatídica noite em 1984. Começando com o gerador de Maldição...


1984 Draft: Sam Bowie (Portland Trail Blazers)

Pobre Sam - não é sua culpa que ele tenha sido escolhido na frente do maior jogador da história do basquete.

Com o tempo, essa escolha acabou ganhando uma versão revisionista, com pessoas argumentando que a escolha era válida porque o Blazers precisava desesperadamente de um pivô (falso: eles já tinham Mychal Thompson, escolha #1 de 1978 e um dos melhores defensores da época... ou, como ele é mais conhecido hoje em dia, o pai do Klay), que não precisavam de MJ já tendo o segundo-anista Clyde Drexler (não só a ideia de alguém não precisar de MJ é hilária, mas Drexler como calouro não foi nada demais, tendo média de 7.7 pontos por jogo e não conseguindo vencer Steve Stipanovich, Thurl Bailey e Darrell Walker para o time de calouros do ano), ou mesmo que ninguém sabia que Jordan seria tão bom (ninguém obviamente podia prever "Melhor da história", mas MJ era um calouro EXTREMAMENTE cobiçado. Pelo menos cinco times ofereceram a casa para o Bulls pela pick atrás de Jordan, com o Sixers chegando ao ponto de oferecer Julius Erving direto pela escolha). Mas independente dos motivos que levaram o Blazers a cometer um dos maiores erros da história da NBA, a culpa não é do pobre Sam, que teria sido um sólido pivô titular caso ficasse saudável.

O Blazers até que conseguiu contornar essa escolha montando uma boa fundação e, com a evolução de Clyde, chegando a duas finais de NBA em 1990 e 1992 (esta última perdendo, claro, para Michael Jordan). Mas faz você pensar o que teria sido do Blazers se tivessem conseguido algo de valor com essa escolha.


1985 Draft: Wayman Tisdale (Indiana Pacers)

Tisdale era uma lenda no College que nunca conseguiu corresponder na NBA. Um pontuador talentoso, Tisdale era um defensor e reboteiro bastante fraco que cometia faltas demais, impedindo que ganhasse mais tempo de quadra e reduzindo sua efetividade. Foi trocado pelo Pacers depois de três temporadas decepcionantes para o Kings por Randy Wittman (sim, aquele) e LaSalle Thompson. Teve o seu auge em 1990 por Sacramento, quando teve 22 pontos e 7 rebotes por jogo de média... por um Kings que terminou o ano com horrendos 23-59. Talvez não foi um bust completo - seis anos como titular na NBA, 15 pontos por jogo na carreira - mas foi um jogador bastante fraco e esquecível, e Tisdale - que faleceu em 2009 vítima de câncer - provavelmente teve mais sucesso em sua carreira posterior como músico de jazz do que como jogador de basquete.


Len Bias (Foto: Sports Illustrated)


1986 Draft: Len Bias (Boston Celtics)

Se você conhece esse nome, você provavelmente conhece a história daquela que é provavelmente a maior tragédia da história da NBA.

Len Bias foi selecionado #2 em 1986 por um Boston Celtics que acabava de sair de mais um título extremamente dominante, e isso graças a uma troca maluca dois anos antes - alguém em Seattle achou uma boa ideia enviar uma escolha futura de primeira rodada por Gerald Henderson pai (Henderson durou dois anos em Seattle com 13 ppg de média). Bias, um dos mais físicos e explosivos jogadores da NCAA, iria começar sua carreira no melhor time da NBA, na posição que o Celtics mais precisava de profundidade (ala/ala de força). Uma combinação rara de força, habilidade e atitude, Bias parecia ser a futura estrela para ajudar o time no curto prazo e pegar a tocha de Bird e McHale no futuro. O melhor time da história do basquete estava ADICIONANDO esse jogador - aonde esse time chegaria então parecia impossível de prever.

Mas nunca aconteceu, e nunca teve a chance de acontecer - Bias morreu dois dias depois do Draft por uma overdose de cocaína. A NBA perdeu uma das suas mais empolgantes jovens estrelas, e o Celtics perdeu o jogador que no curto prazo teria tirado minutos de Bird e McHale e ajudado a estender suas carreiras, antes de virar a estrela do time. Sem um bom reserva, McHale e Bird tiveram que continuar jogando minutos hercúleos, e a carreira dos dois nunca mais foi a mesma depois de 1987, com o corpo de ambos quebrando pouco tempo depois. O futuro de Boston sumiu em um instante, e demorou mais de 20 anos até que o Celtics se reerguesse novamente.

(Trivia: Gerald Henderson pai foi trocado pelo Sonics junto com uma escolha de primeira rodada futura - eventualmente Mark Jackson - para o Knicks por outra escolha de primeira rodada futura, que acabou sendo #5 em 1987. O Sonics trocou essa escolha para o Bulls por Olden Polynice e uma 1st round pick de 1989 que acabou sendo BJ Armstrong. O Bulls usou a escolha para escolher Scottie Pippen).


1987 Draft: Armen Gilliam (Phoenix Suns)

Outro bust famoso, Gilliam teve uma carreira de 13 anos de NBA mas nunca foi mais do que um role player mediano, decente na pontuação e nos rebotes mas incapaz de fazer nada a mais. Phoenix desistiu de Gilliam depois de apenas dois anos, mandando o ala para o Lakers em troca de um Kurt Rambis de 31 anos que teve 4.2 pontos por jogo de média na sua carreira em Phoenix. Aos 31 anos e com oito de NBA, dois times já tinham dispensado o ala, e dois tinham trocado por migalhas (a segunda vez por Mike Gminski) só para se livrar de Gilliam. Resume bem o que foi sua carreira.


1988 Draft: Rik Smits (Indiana Pacers)

O holandês Rik Smits nunca foi um jogador de destaque, mas foi um dos melhores casos de sucesso para o time com a escolha em questão nessa lista - o que diz bastante sobre ela. Um jogador extremamente alto (2,24 m), Smits podia ser perigoso no garrafão jogando de costas para a cesta contra adversários menores e deu trabalho para o Bulls de Michael Jordan na sua segunda passagem pela NBA, indo até mesmo para um All-Star Game em 1998 (foi o mesmo ano que Jayson Williams foi um All Star, então leve isso com trinta grãos de sal).

Smits nunca foi particularmente dominante - nunca teve mais que 18.5 pontos ou 7.7 rebotes por jogo de média, jogou mais de 30 minutos por jogo, ou teve uma grande temporada defensiva - mas foi um titular consistente para o Pacers por 12 anos, alguns deles na época que o time chegou a disputar títulos. Não é exatamente que você quer de uma escolha #2 do Draft, mas poderia ser bem pior.


1989 Draft: Danny Ferry (Los Angeles Clippers)

Mais conhecido por sua carreira como executivo no Hawks, Ferry nunca chegou a jogar pelo Clippers - foi trocado antes da temporada começar para o Cavs por Ron Harper (que eventualmente estourou o joelho, afinal é o Clippers) e escolhas de Draft futuras. Um ala de força extremamente lento e pouco atlético que não defendia sem ponto de vista, Ferry jogou 10 anos em Cleveland e nunca pegou mais do que 4.1 rebotes por jogo e só passou de 10 pontos por jogo duas vezes, sendo até hoje lembrado com um dos grandes busts da NBA.

Foi um daqueles casos que a liga ainda estava apegada a um estereótipo que funcionou no passado (o ala de garrafão branco, lento, que joga abaixo do aro, não defendia e pontuava bastante no colegial) e que não tinha lugar em uma NBA cada vez mais atlética e explosiva, especialmente no garrafão.


Gary Payton (Foto: USA Today)


1990 Draft: Gary Payton (Seattle Supersonics)

Finalmente um jogador realmente bom escolhido com a escolha #2!

Uma das duas exceções da lista (segure essa ideia...), Payton foi escolhido pelo Sonics e, apesar de seus problemas de vestiário e com os colegas, foi a estrela do time por 12 anos de bastante sucesso, anos esses que incluíram uma passagem para as Finais da NBA em 1996 (perdendo para Jordan e o 72-10 Bulls). Um dos maiores armadores da história da liga, Payton é até hoje lembrado pela sua dominação dos dois lados da quadra, sua defesa de perímetro sem igual (apelidado de The Glove, ou A Luva), e por ter singularmente destruído John Stockton nos playoffs de 1996. Se Shawn Kemp não tivesse se autodestruído a partir de 1997, possivelmente teria ganho um anel ainda no seu auge (acabou ganhando um como role player no final da sua carreira por Miami, em 2006), um legítimo Franchise Player apesar de todos os problemas que causava.

Quanto a essa exceção para a Maldição... aguarde um pouco mais.


1991 Draft: Kenny Anderson (New Jersey Nets)

Um jogador talentoso mas muito problemático vindo dos playgrounds de New York, Anderson pelo menos deu ao Nets três bons anos, nos quais teve média de 18 pontos e 9 assistências por jogo (apesar da baixíssima eficiência) e foi a um All Star Game (1994). Mas problemas pessoais e familiares fora das quadras acabaram submergindo o talento, com o Nets eventualmente chutando Anderson para o Blazers por Kendall Gill. Anderson acabou virando um nômade na NBA depois disso, não durando em nenhum time mais do que um ano e meio (o Celtics sendo a única exceção, onde perdeu dois anos quase inteiros para lesões), se recusando a ser trocado para o Raptors por não querer jogar no Canadá, e passando por 9 times diferentes (!!) durante os seus 14 anos de carreira. Um final melancólico para um grande talento.


1992 Draft: Alonzo Mourning (Charlotte Hornets)

Um Hall of Famer, Alonzo Mourning deu ao Hornets três anos muito bons e foi a dois All Stars em 1994 e 1995 por Charlotte, mas não foi até ser trocado para o Miami Heat que enfim atingiu seu auge. Uma doença nos rins terminou atrapalhando e quase acabando com a carreira de Alonzo, mas nos seis anos que jogou em Miami (mais um sétimo destruído por lesões e a doença) Mouring teve média de 20 pontos, 10 rebotes e 3 tocos por jogo, e foi a 5 All Star Games. Foi por Miami que Mourning foi eleito duas vezes o Melhor Defensor da Temporada (1999 e 2000), foi a um 1st e um 2nd Team All NBA, e terminou #2 (1999) e #3 (2000) na corrida pelo MVP.

Charlotte conseguiu bom retorno na troca de Mourning, em especial o ótimo Glen Rice, então não foi uma troca ruim para o Hornets, mas é um caso (teremos outros) nessa lista do time que escolheu um bom jogador no #2 viu esse jogador ter seu auge e seus anos dominantes defendendo outra franquia.


1993 Draft: Shawn Bradley (Philadelphia 76ers)

Um dos jogadores mais altos da história da NBA com 2,29 m (7'6), Bradley era um protetor de aro decente que ficou mais famoso por ser um dos maiores alvos de cravadas na cabeça da história da NBA, o que diz tudo sobre sua carreira.



Pode procurar no YouTube por Shawn Bradley + enterradas, e você vai achar vários exemplos - o mais famoso provavelmente sendo a de Tracy McGrady. Bradley simplesmente não tinha a mobilidade e coordenação motora para fazer uso da sua altura, e em seus 12 anos de NBA foi principalmente marcados pelas enterradas, lesões menores e ineficiência geral. O ponto alto da sua carreira foi provavelmente ter tido seu talento roubado pelos Monstars no filme Space Jam (que completou 21 anos quarta-feira passada, dia 15/11!).

Trivia: Khalid Reeves, um jogador totalmente irrelevante que jogou apenas 277 jogos em seus 6 anos de carreira na NBA, de alguma forma conseguiu entrar nessa coluna por um fato curioso - ele foi envolvido em trocas pelos 3 últimos jogadores dessa lista em algum momento da sua carreira. Fez parte do pacote que o Heat mandou por Mourning em 1995; foi com Kendall Gill para o Nets em 1996 por Kenny Anderson; e em 1997 fez parte do pacote que o Nets enviou para o Dallas junto de Shawn Bradley em uma troca por por Sam Cassell e Jim Jackson - uma troca que, ainda mais curiosamente, também está ligada ao próximo jogador da lista.


Jason Kidd (Foto: eBay)


1994 Draft: Jason Kidd (Dallas Mavericks)

Outro grande jogador, Jason Kidd foi selecionado pelo Mavs em 1994 e fazia parte de um empolgante e promissor trio de Dallas junto de outros grandes talentos em Jim Jackson e Jamal Mashburn, os famosos "Três Js". Mas antes que esse talentoso trio de personalidades difíceis pudesse dar frutos em quadra (Dallas venceu 13, 36 e 26 jogos entre 94 e 96) o vestiário implodiu. Kidd e Jim Jackson brigaram por causa de um triângulo amoroso com a cantora Toni Braxton (não, sério!), os três começaram a brigar por causa de salários, minutos, arremessos e papel no vestiário, e a situação se deteriorou de forma tão grande e tão rápida que Dallas precisou se livrar dos três o mais rápido possível: Kidd foi mandado para Phoenix por Sam Cassell, Michael Finley e AC Green; Cassell foi usado para despachar Jim Jackson para o Nets em troca de Shawn Bradley e do agora onipresente Khalid Reeves; e Mashburn foi despachado para o Heat por Sasha Danilovic e Kurt Thomas.

Em um piscar de olhos, o "time do futuro" de Dallas tinha ido para o chão e o tormento da franquia não acabaria até serem salvos por Dirk e Nash seis anos depois. Dallas viu de longe Kidd se desenvolver em um perene All Star e um dos melhores armadores da história da NBA em Phoenix e New Jersey antes dessa história enfim terminar em um final feliz: Kidd eventualmente voltou para Dallas e fez parte do time campeão de 2011.


1995 Draft: Antonio McDyess (Los Angeles Clippers)

Um ótimo jogador de garrafão, McDyess teve médias de 19 pontos, 9 rebotes e 2 tocos por jogo (e foi a um All Star Game) durante um ótimo período de 5 anos antes que lesões no joelho acabassem prematuramente com sua carreira. No entanto, nada disso foi feito pelo time que o selecionou no Draft, o Los Angeles Clippers: o Clippers trocou McDyess no dia seguinte ao Draft por Rodney Rodgers e Brent Berry, dois jogadores medianos que não ajudaram muito enquanto o Clippers continuou sendo um dos piores times da NBA durante anos a fio, enquanto assistiam McDyess chutando bundas - enquanto saudável - em outros times.

Trivia: Lembra a famosa saga do DeAndre Jordan reassinando com o Clippers depois de ser trancado numa casa com Chris Paul, Doc Rivers e mais alguém para "romper" seu compromisso com Dallas? McDyess viveu uma situação bizarramente semelhante em 1998, e que teria sido uma história muito maior e melhor hoje em dia na era da internet. Depois de defender o Suns em 1998 e virar Free Agent antes da temporada 1999 (do locaute), McDyess chegou a um acordo verbal com o Denver Nuggets antes de receber uma proposta do Suns que o fez balançar.

Na esperança de convencer McDyess, três companheiros de Suns - incluindo Jason Kidd - pegaram um avião e voaram para Denver para encontrar o pivô, possivelmente para fazer com ele o que o Clippers fez com DeAndre Jordan. McDyess estava então vendo um jogo do Colorado Avalanche com o GM do Nuggets, Dan Issel, que ao saber da aproximação dos três jogadores de Phoenix deu ordens para os seguranças do prédio barrarem a entrada deles no prédio enquanto Issel imediatamente levava McDyess para sua sala a fim de assinar seu contrato antes que algo mais pudesse acontecer. A saga só seria melhor se Paul Pierce estivesse lá twittando fotos de emojis de foguetes.


1996 Draft: Marcus Camby (Toronto Raptors)

Depois de dois anos sólidos mas não espetaculares, o Raptors estupidamente trocou Camby para o Knicks pelo fraco Sean Marks e um Charles Oakley de 35 anos. Camby eventualmente se desenvolveu em um excelente defensor e reboteiro fora de Toronto, sendo parte crucial do Knicks que foi às Finais em 1999 mesmo após a lesão de Patrick Ewing, e eventualmente tendo seu auge em Denver, onde foi eleito quatro vezes para o time de defesa ideal da temporada e ganhou o prêmio de Melhor Defensor da Temporada em 2007. Nunca uma estrela, mas um jogador bem sólido que novamente só foi ter seu auge depois de trocado pelo seu time de origem.


1997 Draft: Keith Van Horn (Philadelphia 76ers)

Mais famoso por ser um cover do Tintim, Van Horn foi trocado pelo time que o escolheu (o Sixers) pouco após o Draft por Jim Jackson, Eric Montross e Tim Thomas, e embora nunca tenha sido uma estrela (e tenha tido uma carreira estranhamente curta de 9 anos), Van Horn foi durante um bom tempo um jogador muito útil que tinha a estranha tendência de aparecer como um jogador importante para bons times. Teve média de 18 pontos e 8 rebotes para os bons times do Nets de Jason Kidd (eventualmente chegando nas Finais com o time em 2002), e voltando para as Finais com sexto homem do Dallas de 2006.

Van Horn também merece crédito por ser um pioneiro do basquete moderno: em sua carreira como ala de força, Van Horn chutou 3 bolas de 3 por jogo e acertou 36% delas.


1998 Draft: Mike Bibby (Vancouver Grizzlies)

Outro exemplo de um útil, mas nada espetacular jogador que só se encontrou depois de ser trocado (por Jason Williams - aquele - e um Nick Anderson decrépito). Útil no Grizzlies mas carregando uma carga excessiva em times horríveis no Canadá, Bibby teve seu auge como armador secundário dos famosos times do Kings dos anos 2000 que deveriam ter ido às Finais em 2002. Vancouver trocou Bibby em 2002 e perdeu seu time meses depois para Memphis. A Maldição de Sam Bowie, além de tudo, é criativa.


1999 Draft: Steve Francis (Vancouver Grizzlies)

Mais uma escolha #2 que não deu certo para o Grizzlies, mas dessa vez não foi totalmente culpa da franquia. Uma vez escolhido, Steve Francis declarou publicamente que não queria jogar pelo Grizzlies e exigindo uma troca, chegando até a dizer que era a vontade de Deus. Depois de diversos conflitos extra-quadra, a franquia enfim mandou o armador para Houston em uma troca imensa de 11 jogadores que eu não vou reviver aqui mas que não envolveu nada de espetacular.

Um estilo de jogo individualista, lesões e problemas extra-quadra acabaram por fazer Francis ser trocado de Houston e acabar fora da NBA aos 29 anos, mas durante seus cinco anos no Rockets foi um dos mais explosivos e promissores armadores da NBA, um All-Star por 3 vezes que atacava a cesta feito louco e enterrava na cabeça de todo mundo, mas que nunca atingiu todo o potencial que prometia.


2000 Draft: Stromile Swift (Vancouver Grizzlies)
Três seguidas para o Grizzlies, e mais um fracasso - dessa vez totalmente por culpa da franquia. Swift foi um enorme bust que jogou 5 anos na franquia (em Vancouver e Memphis) antes de ser dispensado e não deixar saudades algumas, e aos 29 anos já estava fora da NBA sendo titular em menos de 100 jogos durante sua carreira. Em defesa do Grizzlies, o Draft de 2000 foi um dos piores de todos os tempos, então não tinha muito o que fazer com essa escolha que não teria sido um grande fracasso.

Diga-se de passagem, Swift foi também um pioneiro - após sair da NBA em 2009, foi jogar na Liga Chinesa antes de ser moda.


Tyson Chandler (Foto: Bleacher Report)


2001 Draft: Tyson Chandler (Los Angeles Clippers)

Com uma classe de calouros MUITO hypeada que incluia Chandler, Pau Gasol, Eddy Curry e Kwame Brown (!!!!), o Bulls - que já tinha a escolha #4 - trocou seu melhor jogador e Franchise Player, Elton Brand, para o Clippers em busca de outra escolha Top4 para ficar com dois desse jovens extremamente promissores (irch!).

E se hoje lembramos do Tyson Chandler grande defensor, finalizando pontes aéreas, ajudando Dirk a ganhar um anel e ganhando prêmios de Defensor do Ano, o Chandler adolescente que chegou em Chicago era tudo menos isso. Chandler teve inúmeros problemas de adaptação e leitura de jogo, sofreu para ganhar minutos, e apesar das inúmeras chances que teve nunca correspondeu em Chicago. Chandler só foi se encontrar como parceiro de pick and roll de Chris Paul em New Orleans e depois explodiu como o defensor de elite que conhecemos em Dallas. Chandler acabou dando bem certo na NBA, mas foi uma longa jornada até chegar lá.


2002 Draft: Jay Williams (Chicago Bulls)

Outra escolha do Bulls que deu errado, por um motivo bizarro. Depois de um ano bastante fraco como calouro, Williams se envolveu em um acidente horrível de moto durante a offseason que o deixou extremamente machucado no joelho, nos nervos da perna e no quadril, uma lesão que encerrou sua carreira no basquete depois de apenas um ano de NBA.


2003 Draft: Darko Milicic (Detroit Pistons)

Em um dos melhores Drafts da história da NBA, o Pistons decidiu pegar Darko Milicic #2 ao invés de Carmelo Anthony, Dwyane Wade e Chris Bosh. E, o pior de tudo, a decisão até fazia sentido na época: Darko era um prospecto bastante bem cotado, o Pistons tinha uma carência no garrafão (Rasheed Wallace só chegaria meses depois), o time já tinha um ala perfeito para seu esquema em Tayshaun Prince, e LeBron-Darko-Melo era o claro Top3 daquele Draft na época.

Ainda assim, Darko entra para a história como um dos maiores busts da história da NBA. Um adolescente que chegou na hora errada, com as expectativas erradas e para o time errado, Milicic nunca mostrou qualquer tipo de produção de bom nível na NBA e estava fora da liga aos 27 anos, seu desenvolvimento e sua confiança destruídos ao longo do tempo. Seu maior legado provavelmente é inspirar um dos melhores blogs de NBA da história, o hoje falecido FreeDarko.

E sabe o que é curioso? Se o Pistons pega Melo (a outra opção plausível à época), eu não acho que o time venceria o título. Melo não se encaixava em nada no esquema, teria comido minutos do ótimo Tayshaun Prince, e ele e o técnico Larry Brown se odiaram quando conviveram pela seleção americana. Em um ano apertado, esse elemento imprevisível e destoante teria implodido a cuidadosa dinâmica em cima do qual esse time foi concluído, e o Pistons talvez nunca chegasse ao seu objetivo. As vezes há males que vem para o bem.


2004 Draft: Emeka Okafor (Charlotte Bobcats)

Okafor não foi ruim como jogador, um bom reboteiro e defensor que acabou ganhando de Dwight Howard o prêmio de calouro do ano. O principal problema é que foi só isso que Okafor foi - o Bobcats e a NBA continuaram esperando que o pivô se desenvolvesse, e isso nunca aconteceu. Os anos passavam, e Okafor continuava sendo o mesmo jogador: 14 pontos, 10 rebotes, 1.5 tocos, boa defesa, mais nada, durante toda sua estadia em Charlotte. Okafor eventualmente foi trocado por Tyson Chandler e viu lesões encerrarem sua carreira. Não foi um bust, mas também não foi nada mais do que um jogador médio e um tanto quanto decepcionante.


2005 Draft: Marvin Williams (Atlanta Hawks)

Outro jogador que ficará marcado para sempre pelos jogadores escolhidos depois dele. No caso, a decisão inexplicável e horrível do Hawks de passar Chris Paul e Deron Williams para pegar Marvin Williams, que sequer fora titular em Syracuse na NCAA. Conforme Paul e Williams se desenvolviam em dois dos melhores armadores da NBA, Marvin foi um contribuidor estável mas extremamente decepcionante para uma série de times sólidos mas esquecíveis de Atlanta, com 11 pontos por jogo de média na Georgia e absolutamente nenhuma evolução ao longo da sua carreira por lá.

Williams eventualmente se reinventou com stretch-four na NBA moderna em Utah e depois Charlotte com bom chute de três pontos e sólida proteção de aro, e achou um bom nicho para si na liga, mas eternamente será lembrado como um dos jogadores mais decepcionantes da NBA - embora apenas em partes por motivos que estavam sob o seu controle.


2006 Draft: LaMarcus Aldridge (Chicago Bulls)

Outra grande estrela e perene All-Star que caiu no colo do Chicago Bulls... só que o Bulls optou por trocar Aldridge pela escolha #4 do Draft (Tyrus Thomas) e o ala ucraniano Viktor Khryapa em uma das piores decisões do século 21.

Tyrus Thomas foi um enorme bust que estava fora da NBA aos 26 anos enquanto LaMarcus Aldridge - agora em Portland - se tornou um dos mais consistentes e dominantes alas de força da NBA, uma garantia de 22 pontos, 9 rebotes, e boa defesa todas as noites por uma série de muito divertidos times do Blazers que nunca atingiram seu potencial por causa de lesões (Brandon Roy, Greg Oden, Wes Matthews... a lista é longa). Chicago ainda conseguiu alguns anos depois se remontar em um contender ao redor de Rose, Deng e Joakim Noah - todos grandes acertos no Draft - mas imagina como seria esse time de Chicago se fosse Aldridge e não Carlos Boozer jogando de PF. Mesmo que seria difícil concretizar essa visão devido aos múltiplos cenários possíveis, ainda foi um erro grotesco de Chicago.


Kevin Durant (Foto: USA Today)


2007 Draft: Kevin Durant (Seattle Supersonics)

Ai está, nosso segundo grande sucesso! Um dos maiores cestinhas de todos os tempos, MVP e atual MVP das Finais, alguém que já está no Panteão dos grandes jogadores de todos os tempos, Kevin Durant é o segundo e último grande acerto dessa lista no quesito "Tenha a escolha #2, selecione um Franchise Player, tenha grande sucesso com ele por muitos anos, aposente sua camisa", o primeiro sendo Gary Payton.

Agora me diga... o que os dois, as duas exceções da lista, tem em comum?

As duas foram pegas pelo Seattle Supersonics... uma franquia que NÃO EXISTE MAIS!!

Não mexa com a Maldição de Sam Bowie se não quer pagar o preço!! Ela tarda, ela pega caminhos tortuosos, mas ela nunca falha!


2008 Draft: Michael Beasley (Miami Heat)

Outro bust famoso. Beasley foi um MONSTRO na NCAA - 26 pontos, 12 rebotes por jogo em Kansas State - mas na NBA teve que lidar com problemas de condicionamento, desinteresse total por coisas como "defesa" e em geral um estilo muito ineficiente e egoísta de jogar. Depois de dois anos decepcionantes em Miami, foi enviado para Minnesota a fim de abrir espaço salarial para a vinda de LeBron James, e passou lá mais dois anos nos quais seus números foram razoáveis mas suas atuações, péssimas. Desde então tem flutuado entre times da NBA (e a liga chinesa), misturando alguns momentos bons no currículo com muito mais momentos de banco e falta de minutos.

(As escolhas #2 e #3 desse draft foram Beasley e OJ Mayo. As #4 e #5 do Draft? Russell Westbrook e Kevin Love).


2009 Draft: Hasheem Thabeet (Memphis Grizzlies)

Em um dos melhores Drafts da história da NBA que incluiu Blake Griffin (#1), James Harden (#3), Ricky Rubio (#5), Stephen Curry (#7) e DeMar DeRozan (#9), de alguma forma o Grizzlies conseguiu fracassar DE NOVO com a escolha #2 escolhendo Hasheem Thabeet, de longe o pior jogador de toda essa lista. Um pivô enorme e comprido que não fazia ideia de como jogar basquete, Thabeet teve média de 3.1 pontos por jogo como calouro e nunca mais conseguiu chegar perto de atingir essa marca. O desenvolvimento nunca veio, a vontade de evoluir também não, e aos 26 anos Thabeet já não tinha mais chances na NBA. Uma das piores escolhas da história da NBA.


2010 Draft: Evan Turner (Philadelphia 76ers)

Outro grande fracasso do topo do Draft. Chegando com status de salvador e dividindo o topo do Draft com John Wall, Turner foi selecionado por um bom time de Philadelphia mas nunca conseguiu se adaptar e adicionar nada a um time sólido que precisava desesperadamente de um brilho individual. Seu estilo de jogo baseado na meia distância começava a virar passado na liga, e sua falta de explosão e agilidade impediram que suas habilidades como playmaker se traduzissem para a NBA. Turner acabou cavando um lugar na NBA como reserva de defesa/post ups/playmaking secundário, mas muito aquém do que se esperava quando chegou à NBA com tanta expectativa.


2011 Draft: Derrick Williams (Minnesota Timberwolves)

Oh boy, que sequência impressionante de busts temos aqui.

Elogiado à época por muitos (inclusive por mim, que cheguei a dizer que o Cavs deveria pegá-lo na escolha #1) como o PF perfeito para a nova era que a NBA estava se encaminhando, Williams na NBA se mostrou lento demais para jogar de SF, fraco e pouco físico demais para jogar de PF. Seu arremesso nunca veio, sua defesa também não, e basicamente viveu dos passe de Ricky Rubio e de algumas pontes aéreas durante muito mais tempo do que deveria. Atualmente está sem clube apesar de ter ainda 25 anos, uma casca do que acharam que ele seria.


2012 Draft: Michael Kidd-Gilchrist (Charlotte Bobcats)

Um jogador cru mas com ótimo físico e de enorme potencial, Kidd-Gilchrist não só nunca se desenvolveu como esperado como também não consegue de forma alguma ficar dentro de quadra. Seu péssimo arremesso - que nunca se desenvolveu - faz dele um encaixe complicado na NBA de hoje, e embora sua ótima defesa compense isso até certo ponto, MKG nunca teve a continuidade necessária para se estabelecer na NBA e acabou ficando para trás no desenvolvimento do atual Hornets. Kidd-Gilchrist ainda não é um bust completo, mas dadas as dificuldades de desenvolvimento e a dificuldade ainda maior de ficar saudável e em quadra, pode ser apenas questão de tempo para ser reconhecido como tal.


2013 Draft: Victor Oladipo (Orlando Magic)

Em um Draft reconhecidamente fraco (que parece um pouco menos fraco hoje que Giannis se tornou um candidato a MVP e Gobert um candidato eterno a DPOY), Oladipo - que muitos tinham como o melhor jogador do Draft - acabou caindo para o Magic no #2 e de modo geral se mostrou um jogador... ok. Seu físico impressionava e sua agilidade também, mas a situação ao seu redor era péssima para seu desenvolvimento: com um técnico retrógrado durante boa parte da estadia, jogando fora de posição, com um time sem nenhum tipo de espaçamento para Oladipo atacar a cesta (sua maior virtude), Oladipo pareceu estagnado em Orlando durante seus três anos antes de ser trocado para o Thunder, onde virou um dos reféns de Russell Westbrook em sua campanha pelo MVP.

Em seu terceiro time, o Pacers, Oladipo enfim parece estar realizando seu potencial. Ainda que seu aproveitamento esteja fora da realidade e deva normalizar com o tempo, o ritmo de jogo e o espaçamento do Pacers ajudou Dipo a maximizar sua velocidade, tornando-se uma força da natureza na transição ofensiva. Talvez Oladipo esteja começando a mostrar seu talento, e que realmente duas situações péssimas em Orlando e OKC eram o que estava impedindo sua carreira. Ainda é possível que um dia adicionemos Victor Oladipo na lista dos jogadores #2 que explodiram depois de serem trocados.


2014 Draft: Jabari Parker (Milwaukee Bucks)

Quanto mais no presente chegamos com essa lista, mais difícil é dizer onde esses jogadores se enquadram e qual seu futuro como escolhas amaldiçoadas por uma escolha feita muitos anos antes deles sequer nascerem. Jabari estaria hoje no seu quarto ano de NBA - mas só vimos basicamente fragmentos de um ano e meio de Jabari Parker em meio a lesões. Das 3 temporadas de Jabari na NBA, duas foram encerradas prematuramente por ligamentos rompidos (sempre um farol vermelho) e a outra foi uma temporada VOLTANDO dessa lesão grave, de forma que é difícil realmente avaliar o que Jabari Parker é como jogador - uma pergunta que Milwaukee deve se fazer com certa frequência. Ele é um 3 ou um 4? Ele é capaz de jogar junto de Giannis e Middleton? É capaz de defender o suficiente? Ainda não sabemos essas coisas.

O melhor parâmetro para Jabari que temos provavelmente é seu 2017 pré-lesão, seus jogos mais saudáveis até o momento. Se for, Jabari parece ser um ótimo pontuador com um arremesso em evolução, mas com uma defesa furada que torna difícil jogar certas lineups com ele, e um jogador preso entre posições. Seu potencial como pontuador ainda é muito intrigante e pode ser que Jabari ainda acabe sendo uma boa escolha #2, como mostrou flashes ano passado, especialmente se o loooongo time de Milwaukee conseguir cobrir sua defesa. Mas também é bastante fácil enxergar uma situação onde o Bucks, com problemas salariais e prestes a dar uma extensão cara para Jabari (que não deu nenhuma mostra de ficar saudável), simplesmente decida que ele é quem precisa ir embora. A ser definido.


2015 Draft: D'Angelo Russell (Los Angels Lakers)

Acaba sendo muito ignorado uma coisa quando falamos do desenvolvimento de jovens é a situação onde eles vão parar, e isso pode ser crítico entre um jogador talentoso acabar como uma revelação ou um fracasso. E D'Angelo Russell é alguém que teve uma das piores situações possíveis, e o Lakers não fez nada para ajudar: basicamente perdeu seu primeiro ano formativo (de calouro) atrás de uma péssima diretoria, o pior técnico da NBA que constantemente estava em conflito público com Russell, e o show de despedida do Kobe que deu a Russell zero espaço para desenvolver. No seu segundo ano, Russell teve seus problemas mas mostrou uma boa evolução sob um novo técnico e uma nova situação... só para ser jogado debaixo do ônibus pela nova diretoria e trocado para o Nets.

Russell tem potencial como passador e chutador, sendo bom em ambas as funções, mas ainda não entendendo como usar as duas dentro de quadra de forma a maximizar seu jogo e seus companheiros. Russell vinha fazendo grandes avanços nesse sentido no começo do ano sob o competente Kenny Atkinson no Nets antes de sofrer a lesão, então resta aguardar para ver o que acontece com o armador quando voltar. Pelo Lakers, ele já foi um fracasso - embora muito por culpa de outros.


2016 Draft: Brandon Ingram (Los Angeles Lakers)

Brandon Ingram foi horrível como calouro, parecendo totalmente perdido dos dois lados da quadra, incapaz de usar seus dotes físicos em quadra e sendo jogado de um lado para o outro como uma boneca de pano. Mas as pessoas esquecem que Ingram era um dos jogadores mais novos do Draft, e ainda é mais novo do que boa parte dos jogadores do Draft de 2017. Por exemplo, Ingram é só dois meses mais velho que Lonzo Ball. É preciso dar tempo a Ingram.

Na sua segunda temporada os progressos foram muito mais animadores. A falta de arremesso ainda é preocupante e será um problema enquanto continuar - Ingram parece muito mais confortável usando seus longos braços para atacar a cesta e finalizar, mas ele não é explosivo, forte ou ágil como Giannis (que, convenhamos, é um ponto fora da curva) para chegar na cesta quando quer, e o arremesso precisará vir para evitar que a quadra fique estrangulada. Ainda assim, Ingram parece um jogador bem diferente no seu segundo ano, e sua combinação de potencial defensivo, criação, passe e pontuação para um jogador do seu tamanho é bem atraente para qualquer time.


2017 Draft: Lonzo Ball (Los Angeles Lakers)

Vamos tirar isso do caminho: eu acho que Lonzo ficará bem. É cedo demais pra julgar demais, muito menos declarar o garoto Ball um bust. As pressões criadas ao seu redor - por um pai maluco, uma mídia ávida por cliques e um Lakers megalômano que já mostrou não ter nenhum tato para lidar com seus jovens jogadores - estão atrapalhando nossa percepção, e incentivando as conclusões precipitadas. Seu QI de basquete e seu passe são bons demais para não darem certo na NBA.

Dito isso, Lonzo tem sido simplesmente péssimo na NBA. Seu arremesso não está funcionado, e Lonzo parece incapaz de finalizar qualquer tipo de jogada que não seja livre. O arremesso ruim de 3 tem chamado mais atenção, mas os 35% de aproveitamento em bolas de dois é muito mais preocupante, a meu ver (em defesa de Lonzo, eu acho que ele tem sido muito mal usado pelo Lakers e teria se beneficiado de jogar ao lado de... D'Angelo Russell). E muito disso não teria importância - apenas os percalços de um calouro - se não fosse Lonzo sendo jogado totalmente no fogo por uma diretoria do Lakers que vendeu cedo demais Ball como seu salvador, o novo Magic, e que precisava que Lonzo fosse dominante logo de cara para vender seu projeto e sua imagem, ao invés de deixar isso se desenvolver naturalmente. Para mim, a situação ao seu redor - familiar, midiática, e a péssima condução do Lakers - é muito mais preocupante para o futuro de Lonzo do que seu arremesso torto.


Conclusão

Ok, agora que chegamos ao fim... HOLY SHIT, que lista horrível. É de doer o coração. Um número enorme de busts, tragédias com lesões, potenciais desperdiçados, e trocas ruins. Não foi fácil escrever essa coluna.

Olhando os números e estabelecendo 2012 como o último ano que podemos dar um veredito parcial (depois disso é cedo demais), eis os resultados em 29 anos de escolhas #2 de Draft entre Sam Bowie (1984) e Michael Kidd-Gilchrist (2012):

- Dessas 29 escolhas, 13 (!!!!!) foram busts, incluindo problemas com lesões (Bowie, Tisdale, Gilliam, Danny Ferry, Shawn Bradley, Stromile Swift, Jay Williams, Darko, Marvin Williams, Beasley, Hasheem Thabeet, Evan Turner e Derrick Williams). Ou seja, incríveis 45% das escolhas #2 desde Bowie foram busts.

- Dessas 29 escolhas, um morreu antes de sequer jogar um jogo de NBA (Lenny Bias).

- Das 29 escolhas, 5 (17%) tiveram uma carreira entre "Decepcionante" e "Abaixo do esperado para uma pick #2" (Smits, Kenny Anderson, Mike Bibby, Emeka Okafor e MKG)

- Das 29 escolhas, 8 (28%) delas acabaram virando realmente bons jogadores ou até estrelas... mas só depois de terem sido trocado pelos seus times de origem (Kidd, Aldridge, Camby, Van Horn, Tyson Chandler, McDyess, Alonzo Mourning e Steve Francis), e eu estou sendo generoso com alguns desse nomes (poderia ser limitada a Chandler, Kidd, Aldridge e Mourning, jogando o resto na categoria baixo).

- E apenas DOIS viraram realmente estrelas para os times que os draftaram, Payton e Durant.

Em outras palavras, 19 de 29 (incríveis 65%) dessas escolhas falharam em se tornar um grande jogador, sendo que 13 foram completamente inúteis para seus times no médio prazo. Olhando mais a fundo, apenas CINCO dessas 29 escolhas (Payton, KD, Aldridge, Kidd e Mourning - 17%) viraram estrelas de fato na NBA (para efeito de comparação, a escolha #3 teve 8 no período e isso sem contar Joel Embiid), e apenas dois, três (contando Smits) ou quatro (se quiser contar como sucesso Glen Rice como retorno de Alonzo) times REALMENTE podem dizer que tiveram sucesso escolhendo na posição #2 durante VINTE E NOVE ANOS.

E no final, chegamos nisso: apenas dois times que tinham a escolha #2, a segunda posição mais valiosa do Draft inteiro, conseguiram obter um Franchise Player para seu futuro e construir todo um futuro vencedor (mesmo que sem títulos) ao seu redor. Ambos foram draftados pelo Seattle Supersonics, a franquia que foi roubada da forma mais cruel da história da NBA.

E se isso tudo não é suficiente pra te convencer da Maldição de Sam Bowie, eu não sei o que é.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Pensamentos sobre Kyrie Irving e Isaiah Thomas


Obrigado por tudo, Isaiah


Caso vocês morem em uma bolha, terça feira Cleveland Cavaliers e Boston Celtics ontem acertaram uma troca bombástica envolvendo Kyrie Irving, Isaiah Thomas, Jae Crowder, Ante Zizic e a escolha de 2018 desprotegida do Brooklyn Nets.

Eu ainda estou em choque demais para escrever um texto coerente, mas queria discutir rapidamente alguns pontos sobre a troca que acho que merecem destaque, ou então que não tem recebido o suficiente.

(Nota: Um número surpreendentemente alto de pessoas não entendeu o objetivo da coluna, então deixa eu deixar mais claro ainda. A ideia NÃO é analisar a troca, apenas passar por alguns pontos que a meu ver não receberam a atenção devida, ou que eu gostaria de expandir!)

- Lealdade

Toda vez que um jogador importante muda de time os torcedores trazem a questão da lealdade à tona. Gordon Hayward foi para Boston, e torcedores queimaram a sua camisa. Por algum motivo, as pessoas são muito, muito fanáticas quando se trata desse conceito esquisito.

E o problema é que, quando os papeis estão invertidos, os times são elogiados por deixar de lado o subjetivo e tomar as melhores decisões racionais, a melhor decisão "para a franquia". É uma questão de dois pesos, duas medidas, nas quais os jogadores sempre saem perdendo. Hayward é um traidor ingrato por ter saído do time que apostou e investiu nele em Utah. Mas quando Hayward virou free agent em 2014, o Jazz não ofereceu ao ala um contrato máximo - ao invés disso o Jazz deixou Hayward livre para negociar com outros times um contrato que Utah poderia igualar, na esperança de economizar. O Jazz fez o que era melhor para si próprio, no que estava certo, mas o mesmo fez Hayward quando foi para Boston. Um é elogiado, o outro tem sua camisa queimada.

E a troca de Isaiah é mais um exemplo do quão idiotas somos de ficar chorando sobre a falta de lealdade dos jogadores. Isaiah sempre foi um jogador menosprezado por causa do tamanho, e que enfim tinha encontrado seu lugar em Boston. Isaiah logo vestiu a camisa da franquia, assumiu a identidade da cidade, e se tornou um embaixador do Celtics. Esteve envolvido no recrutamento de Durant e Gordon Hayward, escreveu um texto para o Player Tribune sobre o quanto amava Boston e o quão bom era enfim ter achado um lugar onde era valorizado, jogou nos playoffs pelo Celtics em meio a uma situação extremamente emotiva da morte da sua irmã... e foi trocado dois meses depois do final da temporada.

Da próxima vez que for reclamar da falta de lealdade de um jogador, lembre-se de Isaiah Thomas.


- Subjetividade

Objetivamente, foi uma boa troca para Boston. O time ficou mais jovem, mais alto (mais nisso daqui a pouco), trouxe uma opção de mais alto potencial, e evitou o problema de pagar um contrato máximo a um PG de 5-9 de 29 anos vindo de uma cirurgia grave no quadril daqui a um ano. Você pode argumentar que o custo foi muito alto (e foi), e quanto à forma como o time maximizou seus ativos (hold that thought), mas foi uma troca que fez bastante sentido e tornou Boston um time melhor.

Isso do ponto de vista de basquete. Do pessoal? Eu confesso que estou muito triste. Isaiah não merecia isso depois de tudo que fez pela franquia, e do o time e a torcida significavam para ele. Boston perdeu seu jogador mais amado, e três jogadores (Isaiah, Crowder, e o anteriormente trocado Bradley) que constituíam boa parte da identidade da franquia. O time de 2018 pode ser melhor que antes, mas não tem mais o sentimento familiar daquele grupo de jogadores que você se apegou e viu crescer.

Talvez mude de ideia com o tempo, mas mais do que gostar ou não da troca, eu admito que hoje estou triste.


- LeBron James

Um dos pontos mais crítcos da temporada 2017/18 do Cleveland Cavaliers é a permanência ou não de LeBron James mais um ano. E embora seja impossível dizer, a impressão é que essa troca aumenta as chances de LeBron ficar em Cleveland pelo menos mais um ano - o que já seria uma grande vitória do Cavs.

Um dos pontos de preocupação de LeBron supostamente seria a saída de David Griffin, GM do Cavs. Mas o novo GM, Koby Altman, se saiu muito bem em uma situação extremamente difícil com Kyrie Irving, e agora pode ser um novo foco de estabilidade na franquia. E em um bom cenário, o Cavs pode estar adicionando um role player perfeito para LeBron (Crowder), um PG semelhante a Kyrie para substituí-lo (Isaiah) e AINDA tem a chance de adquirir uma nova estrela para seu futuro dependendo de onde a escolha do Nets cair.

Claro, ainda tem muita coisa que poderia dar errado para o Cavs (mais daqui a pouco). Mas em um cenário onde parecia cada vez mais provável uma saída do King James, uma boa troca dessas pode dar vida nova para Cleveland com o melhor jogador da sua história.


- Golden State Warriors

Deixando de lado a questão do futuro por um momento, e pensando apenas em 2018, eu acho que para o Cavs existe apenas uma pergunta que importa: como essa troca me ajuda a enfrentar o Golden State Warriors?

E a resposta me parece ter duas faces. Por um lado, Jae Crowder é exatamente o tipo de jogador que você quer ao seu lado (e ao lado de LeBron) se você vai enfrentar o Warriors. Apesar da inconsistência, Crowder é um ala capaz de defender três posições, trocar a marcação e espaçar a quadra com seus arremessos. É alguém que te ajuda a enfrentar a altura e versatilidade de Golden State, oferece uma opção para tentar defender Durant sem sobrecarregar LeBron, e pode fazer tudo isso ainda ajudando do lado ofensivo da quadra. No papel, é o jogador que você quer do seu lado.

Mas por outro lado, Isaiah no lugar de Kyrie é uma considerável piora. É possível argumentar que, se Isaiah estiver saudável e conseguir reproduzir seu nível de 2017 (ambas dúvidas razoáveis), a diferença entre os dois jogadores é pequena, se existir. Mas basquete não se joga no papel, se joga em um contexto, e no contexto de enfrentar Golden State ter Kyrie é uma grande vantagem sobre Isaiah por dois motivos.

O primeiro é que Irving é um pesadelo de matchup para a defesa de Golden State. A defesa do Warriors é uma das melhores da história do jogo, e sua principal força vem do quão bem a defesa trabalha em conjunto, trocando marcação, fechando espaços coletivamente, negando a formação da jogada adversária. É talvez o ápice do que uma defesa moderna de basquete deveria ser. No entanto, o jogo mano-a-mano de Irving é quase uma kriptonita para essa defesa, pois ela tira o coletivo da equação e coloca apenas um defensor individual no confronto, que Irving é capaz de fazer valer por conta da sua habilidade surreal de criar arremessos. Isaiah é um bom pontuador em isolação, mas não está no nível de Kyrie (em parte porque talvez ninguém na NBA está) nesse quesito, e essa é uma jogada que realmente precisa ser de outro nível de eficiência para fazer valer. Isaiah dificilmente seria capaz de reproduzir esse nível de produção no mano a mano, e com isso Cleveland perde uma arma de extrema importância e que, repito, Golden State simplesmente não consegue marcar durante alguns momentos.

E segundo pela questão defensiva. Tanto Irving como Isaiah são péssimos defensores, mas esconder o primeiro na defesa é muito mais fácil. Kyrie é um defensor até decente no mano a mano, e muito ruim defendendo fora da bola, se perdendo com facilidade, mas isso em geral é mais fácil de se esconder em um bom time em um bom esquema - para atacá-lo você precisa envolver ele na jogada, e envolver outros jogadores. Kyrie vai errar bastante, claro, mas é mais difícil atacar um jogador assim. Você vai atacá-lo dentro do seu ataque, mas não vai ser um alvo a ser atacado individualmente de novo e de novo.

Isaiah é diferente. Além dos problemas fora da bola (E em screens), a falta de altura de Isaiah faz dele praticamente um missmatch ambulante para o adversário atacar, especialmente um time com tantas armas como o Warriors. Ele pode ser atacado de várias maneiras simplesmente pela sua limitação física que um jogador mais atlético e alto como Kyrie, por pior defensor que seja, não sofre tanto. Isso obriga seu time a se desdobrar muito mais para escondê-lo defensivamente, e não precisa voltar muito no tempo para lembrar o quanto Boston sofreu com suas lineups e formações para escondê-lo contra times como Bulls e Wizards.

Em geral, claro, Isaiah compensa isso com seu ataque fabuloso. Mas dentro do contexto desse duelo, o ataque de Isaiah é uma piora para o Cavs, e sua defesa também, fazendo dele um jogador muito menos efetivo do que Kyrie seria contra o adversário mais importante do ano.

Entre a piora (relativa!) com Isaiah e a melhora com Crowder, como o Cavs fica no matchup é difícil dizer. Em geral, eu diria que o Cavs se torna um time mais estável e com melhor piso na hora de enfrentar Golden State, mas com um teto menor, e contra um time superior esse teto pode fazer mais falta.


- Altura

Querendo ou não, altura importa - e muito - no basquete. E um dos pontos chave que não tem sido levantado o suficiente quando discutindo o Celtics de 2017 e sua projeção para 2018 é como a altura dos jogadores impactou o coletivo do time.

Em especial, o fato de que Boston jogou 2017 com Isaiah Thomas (5-9, jogador mais baixo da NBA) e Avery Bradley (6-2, baixo para um SG) cobrou mais do time do que se imaginaria. Eu já falei sobre como é difícil esconder as limitações defensivas de Isaiah por causa do tamanho, mas esse foi um problema que acabou composto com as limitações de altura de Bradley: um dos melhores defensores mano a mano da NBA, a falta de altura limita não só sua capacidade de ajudar na defesa trocando a marcação e cobrindo os demais companheiros, mas o fato de que ele já tem que fazer isso enquanto cobre a defesa de Isaiah - que não pode ser movido ao redor do alinhamento adversário por causa da altura - limita muito o que Bradley pode contribuir do lado defensivo, e força o time inteiro a ter que compensar por isso.

Esse déficit de altura foi um dos problemas por trás da defesa do Celtics ano passado, e também dos rebotes. A série contra o Bulls quando Rondo estava saudável: Chicago atacava Isaiah individualmente na defesa e nos rebotes, isso gerava uma quebra coletiva para ajudar, e Chicago conseguia mais rebotes de ataque em cima de jogadores fora de posição ou cestas fáceis. E, acima de tudo, um dos fatores que motivou algumas das trocas de Boston, em especial a de Avery Bradley por Marcus Morris, que tinha um objetivo claro de cercar Isaiah (na época) com tamanho para que esse problema ficasse muito menos evidente, e mais fácil de ser coberto. A montagem atual do time teve o foco de aumentar seu tamanho mantendo a flexibilidade e mobilidade de jogadores menores, e é um aspecto subestimado da evolução do time entre 2017 e 2018 e da chegada de Kyrie. Apesar de perder dois dos seus principais defensores, a defesa do time para 2018 pode ter uma evolução devido a ter resolvido aquele que foi secretamente um dos seus principais problemas do ano passado.


- Custo de oportunidade

Eu acho que foi uma troca boa para Boston. O Celtics (corretamente) estava bastante receoso de pagar um contrato máximo ano que vem para um Isaiah Thomas de 29 anos após uma lesão séria no quadril, e Crowder era mais dispensável após as aquisições de Tatum e Morris. A troca por Kyrie da ao time um jogador de maior potencial, mais jovem, e cuja linha do tempo encaixa melhor com o resto desse ainda bem jovem elenco. Você pode argumentar que o preço foi muito alto por causa da escolha desprotegida do Nets, e sem dúvida foi - dado o mercado frio, eu não sei com quem Boston estava competindo por essa troca de forma que o preço tenha subido tanto assim. Mas tornou Boston um time melhor no curto prazo, e manteve a perspectiva ainda mais favorável no médio/longo prazo.

O que eu acho que é um motivo mais complicado, e que merecem mais críticas, foi a forma como o time lidou com seus (muitos) ativos na busca de uma troca. O que é irônico, já que a grande crítica ao Danny Ainge é que ele era apegado demais aos seus ativos na hora de acordar trocas. Mas se era a hora de trocar a escolha do Nets, não poderia ter dado a ela um uso melhor, quando jogadores como Jimmy Butler e Paul George foram trocados por retornos muito menores? Irving é um upgrade sobre Isaiah, mas trocando por esses jogadores você manteria Isaiah, Hayward, Horford e adicionaria mais uma estrela.

Para mim essa é a grande crítica à forma como Boston conduziu sua offseason, e uma bastante válida. É possível que isso tenha sido mais relacionado à avaliação pessoal dos jogadores em questão por parte de Ainge, que é alguém muito confiante em sua avaliação de talentos. Mas de todo modo, não me parece que todo o processo dos últimos meses extraiu o máximo dos ativos que Boston tinha (por sorte eram, e ainda são, muitos), e com a chance de refazer essa offseason, Boston possivelmente teria como sair ainda melhor. E, justo ou não, fica a sensação de que o time pagou caro demais agora depois de se arrepender dos acordos que perdeu mais cedo na offseason. 

Dito isso...


- Big picture

É possível criticar o preço pago por Kyrie Irving. É ainda mais válido criticar a forma como Boston lidou com seus ativos, como descrito acima, e o custo de oportunidade que a franquia incorreu ao usar sua escolha mais valiosa em Irving quando outros jogadores talvez melhores poderiam ter sido adquiridos pela mesma escolha, sem perder Isaiah.

Mas a questão que também não pode ser perdida de vista é a seguinte: nessa offseason, Boston trouxe duas estrelas legítimas, montando assim um trio de All Stars em Kyrie, Hayward e Horford, mantendo também junto um excelente promissor núcleo jovem (Smart, Jaylen Brown, Jayson Tatum) E com ainda mais uma escolha valiosíssima do Draft de 2018 nas mangas para adquirir outro jovem talento. O resultado, sem a menor dúvida, ainda é excelente: Boston saiu dessa offseason melhor no presente, e melhor posicionado para o futuro. Esse é um excelente resultado para qualquer offseason.

E parte do motivo pelo qual Ainge pode pagar a mais por Irving é porque os passo anteriores permitiram. Trocar a escolha #1 foi criticada, mas gerou uma escolha Top5 extra, que por sua vez permitiu trocar a escolha do Nets e adquiri uma estrela na posição de PG para o futuro. Perder Crowder não vai doer tanto por causa das aquisições de Brown, Morris e Hayward. Boston passou um bom tempo valorizando os ganhos marginais de cada negociação e cada troca justamente para chegar no ponto onde poderia fazer uma troca podendo pagar a mais sem grandes perdas, e foi o que aconteceu aqui.

Se Boston estava certo em usar essa abertura com Kyrie Irving e não com jogadores com Butler ou George é questionável, mas não muda o fato de que Boston se reconstruiu com uma rapidez única na história da NBA, se estabelecendo como legítima força no Leste, enquanto ainda se mantém muitíssimo bem preparado para o futuro. Na big picture, a trajetória de Boston não é nada além de um grande sucesso.


- Riscos

Desnecessário dizer, essa foi uma troca excelente para Cleveland. Em uma situação difícil com a demanda de troca de Kyrie, em um momento onde o mercado da offseason já estava se fechando e os times estavam com os elencos quase prontos - e com a free agency de LeBron como uma sombra por cima de tudo isso - o novo GM Koby Altman conseguiu uma proeza de primeira ordem. O retorno que conseguiram de Boston é de longe o melhor que conseguiriam no mercado a esse ponto, e atinge três pontos importantes: Conseguem um PG pontuador All Star (e 2nd Team All-NBA) para o lugar de Kyrie, bem como um role player de alto nível, para ajudar a repor sua perda e continuar sendo um forte candidato ao título no curto prazo; adicionaram um jovem talento (Ante Zizic, não esqueçam dele) que teria sido uma escolha de loteria se estivesse nesse draft e mais uma escolha de Draft bastante valiosa, como base para seu futuro; e ainda impressionaram LeBron com essa troca. Cleveland saiu MUITO bem.

Mas o que me incomoda é que toda troca tem prós e contras, ganhos e riscos... mas de modo geral ninguém está comentando dos riscos que essa troca envolve para o Cavs. Todo mundo está assumindo o melhor cenário e avaliando a troca de acordo, esquecendo os pontos que ainda podem agir contra Cleveland na troca.

O primeiro e mais significativo é a saúde de Isaiah Thomas. Isaiah está vindo de uma lesão séria no quadril, e seu jogo depende muito do físico e da sua capacidade de explosão e agilidade. Qualquer lesão que tenha consequências pode afetar bastante seu jogo daqui para frente, e supostamente a lesão foi um dos motivos que levou Boston a fazer essa troca. Pode ser que não seja nada sério, mas com um PG de 5-9 vindo de uma lesão dessas e a um ano de um contrato milionário, a margem para erro é bem menor.

Outro risco é a escolha de Draft do Nets. Embora seja ainda uma escolha bastante valiosa, ela também carrega algum risco. Em um Draft que é considerado muito forte no topo (top4-5) e com uma grande queda depois, o Nets talvez não seja tão ruim quanto em 2017, e quanto se espera. O time foi surpreendentemente competitivo ano passado quando Jeremy Lin esteve saudável, e Brooklyn conseguiu bons reforços que não só melhoram o nível de talento da equipe, mas que encaixam bem no esquema que o seu bom técnico (Kenny Atkinson) quer implementar. Ano passado, o Nets jogou com um estilo divertido e veloz que gerou uma tonelada de boas bolas de três pontos, só não tinha quem as acertasse. Agora com DeMarree Carroll (37% 3PT  nos últimos 3 anos), D'Angelo Russell (35%) e Allen Crabbe (41%) a bordo, essas bolas de três vão começar a cair mais, e isso pode tornar esse time razoavelmente perigoso. É um time reforçado, com um bom técnico, e mais importante um que não tem qualquer incentivo para tankar em meio a uma queda no nível geral da NBA e do Leste. O time ainda vai ser ruim, mas isso pode ser a diferença entre uma escolha #3 e uma #6, e nesse Draft essa é uma diferença enorme.

É claro que a troca ainda é ótima, e a melhor que o Cavs poderia conseguir. Conseguiram um All-Star, um bom role player, um jovem jogador com potencial e uma escolha valiosa. Existe um cenário possível onde o time consegue se reforçar contra GSW, vence um título, o time ganha a escolha #1 (de novo!) e LeBron decide ficar em Cleveland. Mais realista, também existe um cenário possível onde o time se mantém bom o suficiente para desafiar GSW de novo esse ano, sem grandes perdas no curto prazo, e mesmo com a saída de LeBron o time se reconstrói em torno de uma escolha Top5 (Bagley, Bamba, Doncic, Ayton ou Michael Porter) de Draft e mais talentos sob contrato.

Mas também existe um cenário onde as lesões de Isaiah prejudicam seu futuro e a temporada 2017 do Cavs, LeBron sai, e a escolha do Nets não rende um dos cinco grandes nomes desse Draft, deixando o time pior no curto prazo e sem uma grande fundação para uma reconstrução. É uma possibilidade real.

Ainda vale a pena? Sem a menor dúvida - a recompensa supera os riscos, e é um excelente retorno mesmo por um jogador do nível de Kyrie. Mas os riscos existem, e não podemos ignorá-los quando discutimos a troca.


- Técnicos importam

Trocas não acontecem no vácuo. Novos jogadores precisam ser incorporados a novos esquemas táticos, e novas funções. Trocas são feitas pensando não no que jogadores fizeram, mas no que farão no futuro para seus novos times, e isso passa sempre por um contexto e uma adaptação difícil de antecipar. Por exemplo, Isaiah Thomas foi melhor que Kyrie em 2017, mas fez isso em um esquema tático montado ao seu redor, tendo como objetivo maximizar suas forças, enquanto Kyrie era  segunda opção em um sistema montado ao redor de LeBron James. Em 2018, as funções serão opostas: Kyrie será o foco do ataque, enquanto Isaiah precisará se adaptar a um jogador que gosta de segura a bola. Como cada um será nesse contexto, e quem será melhor? Não sabemos, e isso faz com que analisar trocas seja uma ciência bastante inexata.

Essa adaptação é um trabalho difícil e que muitas vezes vai depender do técnico em questão, o que é uma coisa boa para Boston: o Celtics tem Brad Stevens, um dos melhores técnicos da NBA e um mestre estrategista. E, por acaso, o esquema ofensivo que ele implementa é perfeito para Kyrie Irving: a movimentação de bola e a presença de playmakers como Hayward e Horford vai tira de Irving a necessidade de jogar tanto como criador de jogadas (o que não faz tão bem), e as movimentações usadas para abrir espaços para Isaiah funcionariam ainda melhor para liberar Kyrie para pontuar. Ainda é incerto se Kyrie - alguém que gosta de segurar a bola, jogar em isolação, e que supostamente quer ser a estrela do time - vai aceitar ou conseguir se adaptar ao esquema mais coletivo e a jogar sem a bola como Boston requer, mas sem dúvida jogar com um técnico criativo e um elenco versátil ajuda as chances de sucesso.

Do outro lado, isso é algo que me preocupa um pouco em Cleveland. Isaiah atingiu seu potencial em Boston através de um esquema voltado para sua movimentação sem bola, corta luzes para abri caminho, e uma série de jogadas desenhadas como hand-off. Dificilmente terá a mesma liberdade e atenção do ataque em Cleveland, onde LeBron controla muito mais o jogo. Integrar Isaiah e sua movimentação fora da bola ao ataque que costuma ficar concentrado nas mãos de um jogador só será um desafio, especialmente por causa dos problemas defensivos que Isaiah causa do outro lado.

A troca, em geral, foi boa para ambos os times, mas com isso se refletirá na corrida pelo Leste em 2018 vai depender do quão bem e quão rápido os times conseguem incorporar suas novas aquisições na sua rotação. Tanto Isaiah como Kyrie são jogadores com forças e deficiências bastante específicas, que não são fáceis de se maximizar, especialmente com pouco tempo. E aqui a falta de um grande técnico pode pesar para o Cavs, e Boston pode colher mais um benefício de ter começado sua reconstrução com Brad Stevens.

terça-feira, 2 de maio de 2017

TM Warning no ESPN League




UPDATE: Infelizmente não participarei mais do programa essa sexta feira. Tentaremos rearranjar os horários para uma data futura. Desculpem o inconveniente.

Bom pessoal, uma novidade interessante para essa semana: essa sexta feira, dia 05/05, estarei nos estúdios da ESPN para participar do ESPN League dessa semana.

Então para quem quer me ver falando na TV sobre basquete e o que mais aparecer pela frente, pagar mico em rede nacional (vocês sabem que vai acontecer), e de modo geral prestigiar essa inciativa muito legal do League que tem convidados MUITOS blogueiros de alto nível (Luis Araujo, do Triple Double; as meninas do NFL Luluzinha; o pessoal do HBNSB; a dupla Gustavo e Gustavo do Jumper Brasil; para citar alguns) para participar do programa e enriquecer a discussão.

Espero que todos gostem da participação, e um agradecimento especial ao Marcus Vinicius, produtor do League (e cidadão muito gente fina) pelo convite!

sábado, 29 de abril de 2017

Prêmios da Temporada 2016/17 da NBA - Parte III

A tranquilidade no olhar de quem ganhou um prêmio no TM Warning


Se você está chegando agora: sim, o Two-Minute Warning está de volta!!

E é hora de fechar de vez nossa cobertura da temporada regular 2017 da NBA antes de mergulhar de vez nos playoffs - que aliás estão ótimos. Tirando as duas varridas (e uma delas, de Cleveland, bem mais difícil do que parece pelo placar final) e mais OKC-Houston, todas as séries dessa primeira rodada estiveram empatadas em 2-2 em algum momento. Então não falta assunto. Mas, antes de entrarmos de cabeça nisso, primeiro vamos terminar a cobertura prometida dos Prêmios de Fim de Ano da NBA.

Para quem perdeu, nós começamos essa cobertura falando dos prêmios individuais da temporada da NBA. Ou seja, foi uma coluna inteira discutindo os seis prêmios individuais do basquete: Defensive Player of the Year, Rookie of the Year, Coach of the Year, 6th Man of the Year, e Most Improved Player... e claro, a tão discutida e debatida disputa pelo prêmio de MVP.  Simplesmente não me foi possível não dar meus palpites e minha visão em uma questão tão debatida, e foram 8.000 palavras explicando meu ponto de vista.

Depois, semana passada, falamos dos Times Ideias da Temporada - ou seja, os três First Teams All-NBA, os dois All-Defense Teams, e os dois All-Rookie Teams, uma visão geral sobre a temporada no formato desses prêmios.

Então nossa cobertura acaba hoje, com a terceira parte desse Especial: hora de falar dos prêmios "alternativos" da temporada.

Ou seja, esses são prêmios que realmente não existem. Mas isso não me parece um motivo bom o suficiente para não falarmos a respeito deles. Qual o problema de criar mais uns prêmios e gerar mais uns debates instrutivos e/ou divertidos? Não é exatamente uma grande novidade. Meu site favorito, o Bola Presa, tem seus próprios prêmios alternativos de temporada, e outro dos meus escritores favoritos, Bill Simmons, também já deu suas próprias sugestões de prêmios "novos" para a NBA.

Então é hora de criar os meus próprios. Vamos ver quem vence cada um deles - e aliás, estou totalmente aberto a sugestões para novos prêmios alternativos. É só deixar nos comentários.

Parte I: Prêmios individuais da temporada
Parte II: Times ideais da temporada
Parte III: Prêmios alternativos

Let's rock.


Drazen Petrovic Award - Melhor Jogador Estrangeiro



Um dos prêmios criados pelo Bill Simmons, o Drazen Petrovic Award foi concebido pelo Simmons como um prêmio para homenagear o melhor jogador europeu da temporada e, ao mesmo tempo, honrar a memória de um dos pioneiros no influxo de jogadores estrangeiros, o genial Drazen Petrovic, jogador de Blazers e Nets que faleceu cedo demais em um acidente de carro (para quem tiver interesse, recomendo o documentário Once Brothers, da série 30-for-30 na ESPN).

O Drazen Petrovic Award que eu roubei adaptei é um pouco diferente: hoje a NBA tem uma diversidade muito maior para limitar essa premiação (criada em 2005) a apenas jogadores estrangeiros europeus. A NBA é uma liga global: temos jogadores asiáticos, africanos, sulamericanos, central-americanos, Australianos, Neozelandeses... para honrar essa diversidade e esse momento, o prêmio Drazen Petrovic do TM Warning não premiará apenas o melhor Europeu, e sim o melhor jogador que não seja dos Estados Unidos.

E sim, eu sei que isso abre margem a todo tipo de polêmica e interpretação: Kyrie Irving nasceu na Austrália, mas joga pela seleção dos Estados Unidos. Ele é qualificado para o prêmio? Então eu criei um critério muito simples: é elegível para o prêmio quem eu achar que é. O prêmio é meu, o site também, então eu que mando. Me processem.

E o legal desse prêmio é que, com a globalização da NBA, nós hoje temos um volume maior do que nunca de bons jogadores estrangeiros, incluindo algumas verdadeiras estrelas para assumir a tocha deixada por caras como Steve Nash e Dirk Nowitzki (dadas as devidas proporções, claro). Dois jogadores entraram no meu 2nd Team All-NBA (Giannis e Gobert), e um terceiro (Marc Gasol) entrou no 3rd Team. Goran Dragic poderia facilmente ter entrado em um ano menos competitivo. Karl Anthony Towns e Jokic são duas das mais jovens e promissoras estrelas da liga. Andrew Wiggins ainda é um jovem de enorme talento, e Embiid vai dominar a NBA se um dia conseguir ficar saudável. E isso sem falar nos jogadores que podem não ser estrelas, mas são jogadores titulares de bom nível, como Tristan Thompson, Ricky Rubio, Danilo Gallinari, Steven Adams, Al Horford; ou mesmo jovens talentos promissores, como Buddy Hield, Jamal Murray e Dario Saric. O futuro do Drazen Petrovic Award promete.

E se Nash e Nowitzki dominaram o Petrovic pela década passada, e a década de 2010 já viu mais competitividade (com vitórias de caras como Tony Parker, Marc Gasol e Joakim Noah), parece que estamos vendo o surgimento de outro cara para dominar esse prêmio por anos em Giannis Antetokounmpo. Eu já falei demais sobre o grego nas colunas passadas, então não vou me prolongar demais no assunto, mas sua emergência como uma estrela foi um dos assuntos mais interessantes do ano, e embora o Drazen Petrovic seja um prêmio de temporada regular, Giannis está tendo também um grande destaque na pós temporada. É possível que essa ascensão meteórica de Antetokounmpo acabe tornando esse prêmio redundante para os próximos anos, mas por enquanto o grego aparece como a melhor opção em um ano absurdamente forte para esse prêmio.

Ballot final: 1. Giannis Antetokounmpo; 2. Rudy Gobert; 3. Marc Gasol; 4. Karl-Anthony Towns; 5. Nikola Jokic.



Steve Nash Award - Jogador Mais Divertido




Outro dos prêmios alternativos criados pelo Bill Simmons foi o Doc J Award para o jogador mais empolgante da temporada, homenagem ao lendário Julius Erving, famoso por suas enterradas e por ser de longe o jogador que as pessoas mais queriam assistir na NBA (e na ABA também).No entanto, depois de pensar a respeito, eu decidi mudar esse prêmio de "Jogador Mais Empolgante" (ou exciting, no original) para "Jogador Mais Divertido". Nessa época de internet, redes sociais, Twitter, GIFs e Vines (RIP), tudo que é "Excitante" ou "Empolgante" vai parar muito rápido na nossa frente e é repetido dezenas de vezes. Qualquer enterrada, game-winner, jogada de efeito ou algo assim já fica muito exposta, então não tem muito sentido realmente dar um prêmio e escrever uma coluna a respeito.

Então eu mudei um pouco e coloquei o prêmio para o jogador mais divertido, por um motivo parecido: se ficou fácil demais para nós vermos as jogadas mais empolgantes no dia a dia, esse excesso de exposição, a facilidade de ver todos os jogos ao mesmo tempo e o fácil acesso a dados e estatísticas, acabou ficando menos significativo a totalidade do jogo de um jogador. E isso inclui a experiência de assistir aquele jogador: Steve Nash dava passes fabulosos que iam parar em qualquer vídeo de highlights, sem dúvida, mas não é só por isso que ele é meu jogador favorito. Seu jogo envolvia todo tipo de inteligência em quadra, visão de jogo, velocidade, movimentação de bola, e um monte de coisas que faziam de assistir cada minuto dele em quadra uma experiência divertida. Então eu preferi adaptar esse prêmio - e elogiar meu jogador favorito no processo.

Esse ano, Russell Westbrook é um bom exemplo do que diferencia o Doc J Award do Steve Nash Award. Se o prêmio fosse o Doc J, Westbrook seria o único candidato possível. Ninguém nessa temporada consegue igualá-lo no quesito "jogador mais empolgante": sua enterradas fantásticas, jogadas impossíveis, números impossíveis, suas sequências de total dominação, os jogos absurdos nos quartos períodos para virar partidas quase sozinho, tudo isso fez de Westbrook o jogador mais polarizador da temporada e aquele que mais nos fez mudar de canal para assistir algum momento empolgante. Ninguém esse ano evocou mais esse sentimento de "Meu deus eu preciso ver isso!" do que ele.

Mas ao mesmo tempo, eu não realmente achava divertido assistir Westbrook jogar. Em meio a todos os momentos absurdos, jogadas fantásticas, enterradas impossíveis e demonstrações sobre-humanas da sua capacidade atlética, tinha um número absurdamente grande de jogadas estagnadas, arremessos forçados, muitos lances de um único jogador driblando sem propósito, e por ai vai. E assistindo aos jogos, esses lances são a maioria, de forma que a experiência de assistir aos melhores momentos de Westbrook era fantástica, mas assisti-lo jogar consistentemente não era nem de longe tão divertido. Essa é a vantagem dos highlights: eles tiram a parte ruim e nos deixam apenas com a parte boa, que é o que a grande maioria dos fãs de esportes quer ver. Mas a minha ideia nesse prêmio não é essa: é premiar o pacote completo.

Esse prêmio então vai para o novo queridinho da NBA, Nikola Jokic. Jokic é um dos melhores passadores da NBA, e sem dúvida é a parte do seu jogo que mais chama atenção e aparece em todos os highlights. Sério, olha esse vídeo...



E esse...



Ai ai...

Onde estávamos? Ah sim, Nikola Jokic. Embora seus passes realmente sejam a cereja do bolo e ponto alto dos jogos de Denver, assistir Jokic é uma experiência muito boa do começo ao fim porque existe muito mais acontecendo do que só isso. Suas habilidades de passe abrem um novo mundo de possibilidade para Jokic e para o resto do time -  de repente todo mundo está correndo em transição, fazendo o passe extra, jogando fora da bola SABENDO que caso se desmarque o passe virá (o exato oposto do que via com OKC as vezes, por exemplo). Parte do jogo de um jogador é como ele afeta seus companheiros, e Jokic se tornou o maestro de uma fantástica sinfonia que foi o melhor ataque da NBA depois que o sérvio virou titular.

E a verdade é que tem algo em Jokic que eu adorava em Manu Ginobili em outros tempos: tudo no seu jogo parece um pouco diferente do resto. Até a jogada mais simples - uma bandeja, um corte para a cesta - parece acontecer de forma diferente, em um ritmo diferente dos demais. Suas mudanças de decisões em frações de segundo NO MEIO DA JOGADA, suas bandejas e passes, seu hábito de pegar a bola e fazer a jogada toda com uma mão só que já ganhou comparações a um jogador de Polo Aquático. As vezes parece até que o cérebro de Jokic funciona mais rápido que seu corpo, e acaba causando alguma descoordenação... até que você percebe que isso também abriu um ângulo que ninguém mais enxergava para uma bandeja com uma mão só. Eu adoro assistir esses jogadores - eu vejo basquete faz mais de 13 anos, e adoro quando aparece alguém que me faz perceber que ainda existem coisas novas para se descobrir na quadra de basquete. Para mim, não houve jogador mais divertido de assistir em 2016/17 que Nikola Jokic.


Ballot final: 1. Nikola Jokic; 2. Giannis Antetokounmpo; 3. Isaiah Thomas; 4. John Wall; 5. Ricky Rubio.



League Pass Award - Time mais divertido



Se temos um prêmio para o jogador divertido, nada mais justo que para o time mais divertido também tenha. Qual é o time que mais da gosto assistir? Qual é aquele time que é garantia no seu League Pass todas as vezes que ta em quadra? 

Infelizmente, no entanto, aqui não vamos ter novidade: o atual bicampeão do prêmio, o Golden State Warriors, leva esse ano de novo.

Se Golden State levar o título esse ano, eu prometo escrever uma coluna muito mais detalhada e indo muito mais a fundo a esse respeito, mas assistir a Golden State esse ano foi uma experiência fantástica por dois motivos diferentes. Um, claro, é nível de jogo. Eles são simplesmente bons demais. Objetivamente, o time é tão bom quanto, senão melhor, que o que ganhou 73 jogos ano passado (o saldo de pontos foi melhor, inclusive). Eles perderam profundidade, mas adicionaram um dos 3 melhores jogadores da NBA e ficaram mais versáteis. E além da excelência, que sempre é divertida, Golden State joga em um estilo particularmente divertido, muito veloz, inteligente, cheio de passes, jogadas de efeito, trocas de posição e simplesmente um excesso de grandes jogadores.

Mas esse é um aspecto, curiosamente, que Golden State foi inferior ao que foi nas últimas duas temporadas. Seu estilo esse ano foi, embora ainda criativo e brilhante, um pouco mais pragmático e eficiente - algo bom do ponto de vista prático, mas perdendo em entretenimento. Entretanto, Golden State também passou esse ano por difíceis adaptações e mudanças para lidar com sua nova superestrela, e ISSO foi uma parte muito divertida da sua temporada. Tanto na parte de adaptação, como depois de adaptado ver Golden State mudando facilmente entre esses diferentes estilos, isso propiciou uma diversão única essa temporada, e ver esse tipo de coisa sendo feita por jogadores do nível de Klay, Curry, KD, Draymond, Iguodala e cia foi um prazer especial para um nerd de basquete que nem eu.

Foi mal para o resto da NBA, mas não existe nada tão divertido quanto GSW nos seus melhores dias.

(Ps. Miami Heat foi #2 do meu ballot e acabou caindo por causa da primeira metade da temporada, que foi muito ruim. Mas contando apenas a segunda? #2 fácil).

Ballot final: 1. Golden State Warriors; 2. Washington Wizards; 3. Denver Nuggets; 4. Houston Rockets; 5. Miami Heat


LVP - O Jogador Menos Valioso

Brincadeira, brincadeira!

O engraçado desse prêmio é que quando eu falo no Jogador Menos Valioso, as pessoas confundem com "pior jogador da NBA" e começam a falar jogadores do fundo do banco que raramente entram em quadra. Mas você não pode ser o jogador menos valioso se não está entrando em quadra e efetivamente atrapalhando seu time: muita gente gosta de falar mal do Kyle Singler, por exemplo, e realmente ele não é muito bom. Mas Singler só jogou em 32 jogos e 385 minutos, sendo a maioria deles garbage time - quanto ele realmente prejudicou OKC nesse tempo? Bem pouco. Então eu não quero um jogador ruim, eu quero um jogador que tenha genuinamente prejudicado seu time na temporada por existir, seja por jogar mal, seja por forçar alguma mudança coletiva da sua equipe que foi custosa.

E o vencedor desse prêmio, para mim,  não pode ser outro senão Andre Drummond. 

Isso pode parecer estranho para um jogador que teve média de 13.2 pontos e 13.6 rebotes por jogo, com 1.1 toco e 1.5 roubos de bola, e 53 FG%. Mas assistir a Drummond era o exato oposto do que os números superficiais indicam. Em seu quinto ano de NBA, o pivô parece ter involuido de forma impressionante. Drummond ainda vai pegar um monte de rebotes e ter seus jogos de 20 pontos, 20 rebotes, mas seu jogo simplesmente estagnou e começou a contagiar todo seu time. Sua defesa é simplesmente um desastre: apesar de todo seu tamanho, força e capacidade atlética, Drummond é um dos piores defensores da NBA inteira, inclusive sendo 54th entre 59 defensores qualificados em proteção de aro. É um festival de posicionamento errado, más decisões, leituras ruins que fazem de Drummond ser uma âncora defensiva em um significado muito mais literal do que Detroit gostaria.

Ofensivamente, sua falta de jogo ofensivo também começa a cobrar seu preço conforme times ficam cada vez mais conhecedores de como defendê-lo. Drummond não consegue fazer nada além de pegar a rebotes ofensivos e dar enterradas: não tem jogo de costas para a cesta, não é um bom passador, não ataca o aro batendo bola, não arremessa, e mesmo quando pega a bola mais longe do aro tem dificuldade de botar a bola no chão e tomar uma decisão. E mesmo quando está perto do aro, sua falta de lance livre (38.6%) faz com que seja uma opção muito fácil descer a mão em Drummond e enviá-lo para a linha do lance livre.

Parte disso é culpa do elenco ao seu redor, mas do jeito que está hoje, Drummond não contribui em nenhum dos lados da quadra em bom nível, e o time ao seu redor sente isso. Sua falta de contribuição defensiva faz Detroit ter uma hemorragia de pontos quando está em quadra (108.4 Defensive Rating), e ofensivamente o time também fica estagnado, esperando o pick and roll entre dois jogadores limitados (Drummond e Reggie Jackson) render alguma coisa, e congestionando o garrafão para o resto da equipe quando o ataque não passa por ele. Não é a toa que Detroit foi um horroroso -6.3 por 100 posses de bola com seu pivô em quadra, e um ótimo +4.6 sem ele. Drummond ainda é jovem e pode evoluir, mas esse ano não sei se teve algum jogador que mais prejudicou seu time na NBA.

(Menção honrosa para Dwight Howard, que jogou bem pelo Hawks esse ano e por isso não é elegível para o prêmio, mas parece sempre afundar seus times por onde passa nos últimos anos. Será coincidência que o Rockets voltou a ser um dos melhores da NBA quando ele saiu?)

Ballot final: 1. Andre Drummond; 2. Joakim Noah; 3. Jeff Green 4. Emmanuel Mudiay; 5. Brandon Knight.


Prêmios Relâmpago

Aqueles prêmios que não são suficientes para serem regulares de todas as temporadas, mas fazem sentido para a temporada 2017 da NBA. Se fizerem sentido e/ou sucesso, podem acabar virando prêmios regulares - essa ainda é uma lista em desenvolvimento. Aceito sugestões!

Pior tank da temporada: Los Angeles Lakers

Los Angeles começou o ano até que bem, com uma campanha de 10-10 nos primeiros 20 jogos com um núcleo jovem, um estilo de jogar que imitava o Warriors, um banco muito divertido, e Lou Williams fazendo coisas de Lou Williams. Até que tudo caiu por terra: lesões atrapalharam toda a rotação de Luke Walton, os times começaram a aprender a forma de enfrentar o time, e a boa e velha regressão para a média atingiu com força. Los Angeles imediatamente perdeu 14 dos próximos 17 jogos e se tornou o pior time da NBA (terminaram o ano com o pior Net Rating da liga).

Mas isso não era uma coisa ruim: o Lakers não ia para os playoffs mesmo, e sua escolha de Draft esse ano é apenas protegida Top3. Ou seja, se o Lakers não tiver uma das 3 primeiras escolhas do Draft, essa escolha vai para Philadelphia. E para piorar, se essa escolha for para Phily, o Lakers TAMBÉM perde sua escolha de primeira rodada de 2019 para o Magic, por conta da troca do Dwight Howard em 2012. Então era fundamental para o futuro do Lakers ser ruim e ficar com uma campanha que permitisse ao time ter uma das maiores chances de manter essa escolha na hora do sorteio.

E parecia estar tudo dando certo: Los Angeles chegou na reta final da temporada com a segunda pior campanha da NBA (obrigado, Nets!), e uma chance de 55% de manter sua escolha de Draft... até que o time venceu 5 dos seus últimos 6 jogos da temporada naquele momento do ano onde ninguém está mais realmente jogando a sério, passou o Suns na classificação, e viu suas chances de manter as escolhas despencar para 46%. E foi hilário, porque o Lakers tentou de tudo para continuar perdendo: colocou os veteranos de férias mais cedo, colocou os principais garotos no banco, criou lesões, usou os jogadores mais obscuros, contratou jogadores sem time... e não adiantou, o fundo do banco do Lakers continuou ganhando jogos enquanto os torcedores se descabelavam. Se Los Angeles perder suas escolhas, esses seis jogos podem assombrar os fãs do Lakers por muitos anos.


Time que mais decepcionou na temporada: Minnesota Timberwolves

Em retrospecto, a culpa pode ter sido mais nossa por termos colocado expectativas erradas em cima desse time. Era um time jovem demais, com um técnico novo cujo estilo (e eu falei isso na época) não era um encaixe muito fácil, profundidade questionável e jogadores ainda um tanto quanto unidimensionais.

Ainda assim, Towns dominou como calouro, Kris Dunn era um calouro muito bem cotado, Wiggins uma ótima segunda estrela, e Thibodeau um técnico renomado. Muita gente tinha Minnesota chegando nos playoffs, e até mesmo ganhando 50 jogos. E logo ficou bem claro que não seria o caso, porque absolutamente nada deu certo nesse time. A defesa foi uma peneira, Towns não conseguiu realmente canalizar seus talentos para o time, e o elenco logo mostrou suas limitações. Minnesota acabou ganhando 31 jogos na temporada, e vai para mais uma loteria. 

Ainda que seja exagerado cobrar demais de um time tão jovem (e Minnesota TEVE uma grande sequência na temporada onde mostrou um pouco do seu potencial, logo depois do ASG), e mais uma peça da melhor loteria dos últimos 10 anos seja algo bom, a verdade é que a essa altura todo mundo esperava ver algo a mais desse núcleo. A falta de evolução não preocupa, mas incomoda. Mesmo que nossas expectativas tenham sido um problema, elas vinham de algum lugar, e Minnesota mais uma vez falhou em cumpri-las.


Maior desastre da temporada: New York Knicks e Sacramento Kings 

Nosso primeiro prêmio dividido. Eu preciso explicar essa? 


Melhor história da temporada: Milwaukee Bucks

Eu pensei em dar esse prêmio para o Westbrook e o Thunder, por terem se mantido vivos mesmo perdendo Durant e possivelmente faturando um prêmio de MVP no processo. Mas o Bucks também merece crédito: depois de perder seu segundo melhor jogador, Khris Middleton, antes da temporada começar, todo mundo deu Milwaukee por morto e declarou que seria um ano perdido para a franquia. 

Mas Giannis deu um salto de produção, algumas novas adições pareceram encaixar, John Henson começou bem o ano, Malcolm Brogdon se mostrou uma ótima escolha... e mais importante, Jabari Parker começou a parecer a estrela que todos esperavam quando foi escolhido no Draft, e logo emergiu como o segundo melhor jogador do time. Milwaukee começou o ano muito bem, e parecia que afinal das contas o time teria algo a fazer esse ano, garantindo seu lugar no meião do Leste.

Então Jabari Parker machucou o joelho e ficaria de fora o resto da temporada, no que parecia a segunda sentença de morte para o Bucks na mesma temporada... só que dai Middleton voltou jogando em altíssimo nível, Giannis deu um salto de "grande jogador" para "futura superestrela", Greg Monroe se reinventou como um sólido defensor e ótimo jogador de banco, o promissor mas cru Thon Maker teve bastante sucesso entrando como titular, e o Buck fez uma corrida final improvável para saltar da nona posição no Leste até fechar o ano em sexto e garantir uma vaga nos playoffs.

Milwaukee acabou perdendo em 6 para Toronto e se despediu dos playoffs, mas acho que nenhum time sai desse ano com mais otimismo que o Bucks: a temporada e os playoffs oficializaram Giannis como a próxima grande superestrela da NBA, e com um Jabari Parker saudável e a volta de Middleton, mas a evolução de jovens talentos como Thon Maker, e uma diretoria cada vez mais competente na hora de tomar suas decisões, o futuro desse time é extremamente brilhante.